quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A casa do Oscar



Ando a ver este documentário e lembrei-me disto. É do Chico [Buarque].

"A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar.
Mais tarde, em um aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.
Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar!
Pois bem, internaram-me em um ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.
Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.
Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar".

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

"Pessoas sem filhos vs Pessoas com filhos"

Encontrei este link no facebook e partilhei com a seguinte frase: "Detesto admitir, mas é quase tudo verdade. Não tudo, mas quase tudo". Passado algum tempo, havia nos comentários algumas vozes discordantes. Hoje em dia abundam este tipo de artigos, e às vezes até dá que pensar. 
Antes de mais, com a minha frase eu queria dizer que algumas daquelas coisas já nos aconteceram numa dada altura. Não em simultâneo, não sempre. 
Este texto em forma de lista quase sugere que não ter filhos é que é, é ter liberdade para escolher, para fazer, para ir. E depois as pessoas com filhos, coitadas, com vidas patéticas, sujinhas e limitadas. A vida com filhos não é assim, é uma visão redutora. Mas os aspectos referidos no texto acontecem, ah sim. 

Eu por exemplo, temo a sexta-feira. A semana de trabalho do Daniel tem seis dias, ao sábado ele sai para trabalhar, eu fico sozinha com as duas pequenas, com o almoço para tratar e sestas para gerir. E é quando me defronto com a desarrumação que vai pela minha casa, pelo monte de roupa até ao tecto, pelas tarefas que se acumulam. Para não falar de que não damos um jantar para amigos há meses. 
No outro dia estava tão exausta que só queria cinco minutos de silêncio. E juro que pensei ir um bocadinho para o escritório, para o conseguir. Entre outros.
Às vezes é mesmo muito duro, caótico e desesperante. Mas os adultos somos nós e cabe-nos gerir a dinâmica familiar, criá-la de forma saudável. Nenhuma criança se vai sentir segura com pais que não têm amor próprio. E pais com amor próprio investem nas rotinas, na estabilidade, na coerência. E com isso ganham tempo, ganham espaço e ganham respeito. E nas rotinas familiares tem que haver espaço para, por vezes, as coisas descambarem.

Eu gosto muito de ser mãe, fui mãe quando me senti preparada. Não preparada para as noites interrompidas, para as refeições atribuladas, para as birras, para as fases, ninguém está verdadeiramente preparado para isso. Digo preparada para a entrega, para uma mudança de vida. 
Perdem-se umas coisas, ganham-se outras, ajustam-se outras. O que interessa isso? Nenhum pai ou mãe saudável vai olhar para os filhos e pensar "foste a pior coisa que me aconteceu". Ter um filho é maravilhoso, e este adjectivo já inclui tudo o que tem de terrível e assustador. E o terrível não é ter uma nódoa de vomitado na roupa, nem poder ir ao cinema ou ao restaurante sempre que apetece. Terrível é querer ser um bom pai e sentirmo-nos a falhar, sentirmo-nos a sucumbir ao cansaço, sentir que não temos o tempo todo que queremos. Assustadora é a preocupação que nos acompanha sempre, pelo bem estar dos nossos filhos. São os nossos filhos. A dar os primeiros passos, a dizer “bola” pela primeira vez. Cada dia vão dependendo menos de nós e tudo isso é simplesmente maravilhoso, mas logo a seguir, um bocadinho amargo. 

Depois cada família tem as suas peripécias, e os pais adoram trocar cromos. Às vezes acho que a nossa vida dava um filme de terror, ou então uma comédia e isso não faz mal. Pegar nesta lista e dizer “isto é a minha vida” é simplesmente errado. Redutor para nós e injusto para elas. Não posso dizer que a minha vida era melhor antes da Bárbara e da Teresa. Era diferente, era boa. Mas agora também é. A um outro nível é até incomparavelmente melhor. Mas é preciso querer ver isso. Mesmo que tenha que voltar ao supermercado duas vezes no mesmo dia, às vezes até mais do que uma vez por semana.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

[o melhor do meu dia]

Às 7 acordou a Teresinha. Palrou, palrou e fui buscá-la, mudei-lhe a fralda e preparei o leite. O pai deu-lhe o biberão e eu deitei-me mais 5 minutos. Às 7.15 acordou a Bárbara. Ouvi-lhe os passitos rápidos e parou, encostou-se à ombreira da porta a olhar, só com um olho aberto, o cabelo desgrenhado, o livro da Carochinha debaixo do braço. Chamei-a, deitou-se ao meu lado e assim ficamos os 4 na minha cama, nós nas pontas e elas no meio, num namoro pegado até serem mesmo horas de levantar. 

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

[segunda-feira]

Comecei o dia meia murcha e a queixar-me disso no facebook. Blame it on mondays. Então alguém partilhou comigo uma mensagem que dizia "Amanhã de manhã, a primeira coisa que vais fazer é escrever ou repetir esta frase: no que depender de mim, vou agarrar a segunda-feira com boa disposição e ânimo". E de facto, encontrar em mim o impulso e a força para enfrentar um dia, que por acaso é o primeiro da semana não é fácil, não foi fácil, mas foi possível e fez toda a diferença. Eu não entendo de karmas, de mantras nem de chakras, eu mal me entendo a mim própria. Mas hoje relembrei uma coisa que anda sempre muito esquecida: se eu quero, eu consigo. 

[Obrigada, C. por aquelas palavras.]




sábado, 11 de Outubro de 2014

[bárbara be good]

Quando a Bárbara começou a fazer as primeiras birras fiquei muito aflita. Não sabia lidar com aquele estado de descontrolo. A primeira vez que ela se atirou para o chão aos berros pensei "onde está a minha filha?" e fiquei a olhar, incrédula, mas parte de mim queria fugir para bem longe. Depois comecei a fazer tentativas, lia umas coisas, punha em prática, ia pensando, e fomos traçando a nossa própria estratégia. 
Mas às vezes, em dias de exaustão, perco completamente a paciência e sai um berro ou uma palmada. Quase sempre corrijo logo a seguir, sem mostrar que estou tremendamente arrependida, sem que o sentimento de culpa me passe pela voz ou pelo olhar. Uma vez alguém disse que uma mãe nunca pede desculpa, mas eu tenho as minhas dúvidas. As mães também erram, as mães também choram. As mães falham. E pedir desculpa quando se erra, ou dizer "a mãe exagerou, está cansada e não queria gritar" é uma boa forma de ensinar a humildade. 
Com as birras da Bárbara aprendi muito. Primeiro, aprendi que as birras são coisas dela, não são dirigidas a mim. Como tal, aprendi a acolher e a conter toda aquela fúria, a acalmá-la e a ajudá-la a perceber o que sente. Segundo, aprendi que as crianças são para respeitar e levar muito a sério. E que desde cedo podem fazer escolhas e que ao escolher se sentem responsáveis e que controlam um bocadinho aquilo que as rodeia. Terceiro, aprendi que o caminho que parece mais lento e inglório é, na verdade, o mais directo. Vale a pena ter alguma tranquilidade e não mandar logo um berro. Mas não se nota logo. Com as birras da Bárbara aprendi a ler-me a mim própria e a ganhar confiança no meu papel de mãe. Fora os dias em que estou exausta, não tenho que me controlar para não lhe dar uma palmada no rabo, a voz sai-me naturalmente calma e firme, sinto-me segura. Eu sou a adulta e sinto que assim ela confia muito mais em mim e se confia respeita, sente-se amada e protegida. Zango-me, sim. Fico danada com ela, sim. Mas nunca lhe viro as costas, nunca deixo de lhe falar, nunca a abandono quando ela mais precisa, e é nestas alturas que efectivamente mais precisa.
Um dia, depois de a ter repreendido, acalmou-se e perguntou-me "e assim, mamã, já gostas mais de mim"? Respondi-lhe "às vezes não gosto do que tu fazes, mas gosto sempre de ti, sempre". É a mais pura das verdades, e eu quero que ela perceba que o que está em causa não é ela, mas sim o que ela faz. A minha filha mais velha é uma boa menina. Desobedecer não faz dela uma pessoa má. Bater nos pais é inaceitável, é horrível, mas não faz dela uma pessoa feia. E em fases de calmaria, quando acata o que lhe dizemos, quando responde ao que pedimos, quando conversa, quando pergunta, vêem-se muito bem os frutos da educação que lhe damos. 

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Acho que esta música diz-nos a todos alguma coisa

eu sei
que a vida tem pressa
que tudo aconteça
sem que a gente peça
eu sei
eu sei
que o tempo não pára
tempo é coisa rara
e a gente só repara
quando ele já passou
não sei se andei depressa demais
mas sei que algum sorriso eu perdi
vou pedir ao tempo
que me dê mais tempo
para olhar para ti
de agora em diante
não serei distante
eu vou estar aqui
cantei
cantei a saudade
da minha cidade
e até com vaidade
cantei
andei
pelo mundo fora
e  não via a hora
de voltar para ti
não sei
se andei depressa demais
mas sei que algum sorriso eu perdi
vou pedir ao tempo
que me dê mais tempo
para olhar para ti
de agora em diante
não serei distante
eu vou estar aqui
não sei se andei depressa demais
mas sei que algum sorriso eu perdi
vou pedir ao tempo
que me dê mais tempo
para olhar para ti
de agora em diante
não serei distante
eu vou estar aqui



segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

[oito]







Oito meses e não há meio de este Amor me caber no peito.

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