quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

daqui a muitos e muitos anos, vamos rir-nos disto, tenho a certeza

Chegámos a casa com as miúdas, num só carro. O meu foi para a oficina. Gostava de ser americana e dizer "my car is in the shop", em inglês fica sempre tão bem. Comecei a preparar o jantar, o Daniel tratou das miúdas. Aqueci a sopa da Teresa. Ele deu. Vestiu-lhes o pijama depois de as lavar e foi apanhar roupa. Reparei que a ricota para o molho estava estragada e ele teve que sair para comprar, porque eu já não tinha nada que substituísse e o jantar estava quase pronto. A Bárbara ajudou-me a fazer o jantar. A Teresinha desligou o telefone de casa, espalhou os dvd's, os sapatos, os casacos, os brinquedos, os livros, as chaves e os carregadores. Despejou-me a bolsa, espalhou as palhinhas e tentou comer uma cebola com casca. O Daniel chegou e foi brincar com elas. Acabei de fazer o jantar, pus no forno a gratinar, pus a mesa e depois fomos jantar. A Bárbara começou a chorar. Não gostava daquele queijo (o mozarela), queria do outro queijo [o parmesão], não gostava de cogumelos, não gostava de tomate, não gostava de "côve" [era manjericão], não gostava de massa, pronto. Levou sermão e missa cantada e começou a comer. Enquanto isto, a Teresa chorava e choramingava e demos-lhe um pão para ir mordendo. Estava perdida de sono. Após o jantar, a Bárbara viu as músicas de dormir [há duas muito giras, depois de A Casa do Mickey Mouse, no Disney Junior], foi lavar os dentes e fazer xixi. Tentamos contar a história do Pedro e o Lobo algumas vezes, porque a Bárbara tinha frio, porque tinha fome, porque eu não estava a segurar bem no livro, porque eu não dei a entoação certa. À 4ª, depois de ameaçar que não haveria história, consegui. Apagámos a luz, já a Teresa dormia [sem chupeta], e a Bárbara também adormeceu de imediato. 

Preparámos mais umas coisas e fomos ver um filme, mas ao fim de 10 minutos já estávamos a cabecear. Dei o dream feed à Teresinha, pus a Bárbara a fazer xixi. Era meia noite. A Teresinha despertou. Passados 20 minutos, sossegou. 
Às cinco e dez da manhã acordou, queria conversa. Tentei adormecê-la em vão. Às seis mandei as teorias às urtigas, levei-a para o meu quarto, onde ela virou, rebolou, palrou até adormecer, com a cabeça na almofada do pai, ele todo encostadinho na beira da cama, ela na diagonal, com os pés no meu peito. Às seis e meia ouço baixinho "mamã, mamã!" Hmmm? "Quero fazer xixi!" Penso, boa, pediu! Levo-a à casa-de-banho e ela volta para o quarto. Volta para trás e diz "queres vir comigo para a minha cama? É muito boa!" Fui. Deitei-me e caramba, é mesmo boa. Disse-lho e ela respondeu "ainda bem, mamã". Adormecemos.

O Daniel acorda-me. "São oito e um quarto!" Levantei-me a correr e tomei um duche rápido. A Bárbara a dormir que nem uma pedra. Primeiro dia de colégio depois de 5 dias em casa. Tentei a bem, até que depois tive que a agarrar para a tirar da cama. Começou o choro aos berros. Vesti-a, ela sempre a berrar. De vez em quando parava de chorar para bocejar [dava-me tanta vontade de rir]. Consegui que se acalmasse, que lavasse os dentes, e que tomasse o pequeno-almoço. Vesti-me, agarrei no computador, nas chaves, na bata, nos casacos, no saco da Teresa. Penteei-a. A chupeta! Vestimos-lhes os casacos [a Teresa dá muita luta], vestimos os nossos casacos e abalámos. Ligámos para o colégio a avisar do atraso. No carro senti uma fome brutal, não tinha tomado o pequeno-almoço. Deixei o pai e a mais velha, abalei com a mais nova, deixei-a na minha mãe. Fui a casa, tomei leite e comi o meio pão que sobrou. Estendi uma máquina de roupa [tenho que encher menos a máquina], peguei no telemóvel que me tinha esquecido e desci. Quase que adormecia no elevador, juro. 

Abanquei num shopping a trabalhar, acho que aqui não adormeço. Escrevo este post. Já tomei um café, mas apetece-me outro. E talvez outro. Tenho saudades das miúdas. Eu e o pai nem demos um beijo de bom dia. Tenho tanto, tanto trabalho atrasado. Não faço ideia do que vai ser o jantar. Vai ser um longo dia. Vejo a Zara daqui e apetece-me entrar. Vejo as pessoas descontraídas e também queria sentir-me assim e não esta pilha de nervos. Esta dor de barriga. Oh God. 

Vai correr bem. I can do this. Ainda estão aí?

domingo, 23 de Novembro de 2014

Minha filha Bárbara

Eram 5 da manhã quando ela chamou. Não estranhei porque ou uma ou outra, por um motivo ou por outro têm acordado a essa hora. Mas era para vomitar. Passei as 4 horas seguintes a correr para a casa de banho com ela, a segurar-lhe o cabelo, a pôr-lhe a mão na testa, a acalmá-la. E quando percebi que nem a água segurava na barriga fomos ao médico. Em princípio seria uma gastroenterite. Já havia alguma desidratação, por isso devíamos vigiar e se não houvesse melhoras, hospital. 

Não melhorou e à tarde levei-a à urgência pediátrica. Perdi a conta às vezes que parei pelo caminho, e comecei a ficar mesmo preocupada, já a acreditar que ela ia ficar a soro. Na sala de espera havia muita gente. Curioso. Era uma sexta à tarde e havia muitos miúdos de braço ao peito ou em cadeira de rodas, magoados nos pés, nas pernas. À noite vêem-se mais crianças febris ou com problemas respiratórios. Enfim. Não ficou em observação, mas a consulta foi bastante demorada, cuidada e já voltamos tarde para casa. Ela ainda com febre e dores de barriga, eu exausta, agastada com tanto que corri, tanto colo que dei, de tanto que tive que vê-la em sofrimento. 

Estou cada vez mais convencida de que uma boa noite de sono terá alguns poderes curativos, e a verdade é que depois de umas largas horas de sono, ela acordou bem disposta, a querer brincar, a falar alto. Fiquei aliviada. Não parecia nem de perto a Bárbara de há 12 horas atrás, de olhos fundos, de ar abatido e frágil. 

Deitou-se connosco na cama. A Teresinha já estava no nosso meio há um par de horas. Falamos do dia anterior, de como tinha sido duro. Ela encostou-se a mim e eu dei-lhe um beijo na cabeça. Então ela disse-me bem devagar, de voz firme e crescida, como quem fala muito a sério, "obrigada mãe, por teres ido comigo ao médico e ao hospital". Não aguentei e chorei. Não sei como semelhantes palavras saíram daquela boca, mas encheram-me de orgulho. Se há adultos que não o dizem, muito menos com aquela simplicidade. Fiquei desarmada, emocionada, felicíssima. Estamos a ir bem, é nestas alturas que mo mostras. És uma grande menina, minha querida filha Bárbara. E eu adoro ser tua mãe.



quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

fazer [mudar]

Quando a Teresinha nasceu, havia muita coisa para gerir: duas filhas, uma casa que nunca foi muito organizada, muita roupa, as minhas próprias emoções e a dificuldade em aceitar que só o tempo traria alguma calma e tranquilidade à nossa casa.

O que todos me diziam foi o que se tem verificado, as coisas melhoram. As rotinas estão instaladas, sabemos que há noites mal dormidas sempre que se atinge uma etapa nova, sempre que há um dente ou uma conquista significativa, como gatinhar. Penso que na teoria sabemos muitas coisas. Sabemos quantas horas a Bárbara precisa de dormir para andar tranquila e bem disposta. E a que horas temos que acordar para que de manhã não haja grandes dramas. Que é mais fácil se tudo for preparado no dia anterior, que devemos ir arrumando à medida que desarrumamos. Que não pode passar um dia sem fazermos uma máquina de roupa. Que meia hora a dar um jeito à casa é precioso para a desarrumação não se instalar. Que planear refeições e compras é poupar [tempo, dinheiro e chatices]. Que devíamos ter uns fins-de-semana mais tranquilos e caseiros, para nosso bem, das miúdas e da nossa casa. Tantas coisas. Não sou metódica nem organizada e convivo muito mal com esta minha inabilidade. É uma luta que travo há muito tempo e a vários níveis. E se sinto alguma culpa como mãe, é neste aspecto, porque esta falta de organização rouba-me tempo. De levar as miúdas mais cedo para casa, dar-lhes banho e jantar, brincar com elas, dar-lhes tempo para se ligarem, para estarem em casa. À Bárbara sinto que lhe estou sempre a cortar o barato. Como o tempo é pouco, interrompo-lhe as brincadeiras mais vezes do que gostaria, ou porque tem que ir jantar, ou vestir o pijama, ou lavar os dentes, ou dormir. É cruel. Há um mínimo. E este é apenas um dos danos colaterais.

Gostava de ser capaz de criar mais constância na nossa vida. Mas o meu perfeccionismo é quase incapacitante, comigo é tudo ou nada e ou levo tudo à frente ou deixo que o cansaço me vença, dia após dia, noite após noite. Passo a vida numa luta que é inglória, mas sei que tudo pode ser mais fácil. Se ao menos eu abraçasse a mudança. O que a vida me dá. E a mim própria, com tudo o que eu sou, posso ser e tenho para dar.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

[segunda-feira]

Assim têm sido as minhas segundas-feiras. Começa a haver aqui um padrão. A começar mais tarde, mais apressada, nem sempre com o aspecto que quero ter. Adoraria começar a semana com um cabelo impecável, a pele e o olhar descansado, uma roupa bem escolhida. Mas estou tão ao contrário. Cabelo escorrido, com olheiras, sem maquilhagem. Vesti a t-shirt mais macia que encontrei e pus um lenço ao pescoço, para parecer menos desleixada. Faz-me falta o sono, que ficou em défice porque andei a levantar-me de hora a hora, ora por causa de uma filha, ora por causa de outra. Há noites assim. O que me custa, hoje em particular, é ter que ignorar que os olhos pesam, que a cabeça dói, ter que trabalhar a todo o vapor, a riscar itens da lista. Esquecer tudo, e por umas horas pensar só em linhas, planos, cortes, cotas, legendas e impressões. 
Especialmente em dias como este tem ajudado planear a semana, organizar o calendário e fazer listas de prioridades. Mas isso por um lado também me desassossega. Quando é que vou ter mais tempo, como vou encaixar tantas coisas? E quando é que este trabalho vai compensar? Tenho pensado muito no meu futuro, sobretudo no profissional. Mas hoje, esta semana, não terei tempo para me questionar. 
E hoje, só por hoje, vou buscar o almoço e comer aqui, sentada à secretária. Faltam-me fotos delas, penso. A Teresinha começou a gatinhar esta semana e a Bárbara está a entrar na idade dos porquês, o Daniel está a trabalhar em pleno. Penso muito neles quando estou aqui e tenho muitas saudades. Mas prefiro assim, e os reencontros ao fim do dia são muito bons, mesmo que apressados e mergulhados nas rotinas, mesmo que depois nem me demore 5 minutos no sofá antes de me deitar, mesmo que só falemos um pouco, alguns minutos antes de apagar a luz. Gosto desta nossa vida, mesmo que ainda a sinta tosca, mesmo que ainda me faltem coisas, mas são essas coisas que me fazem lutar e sonhar. O importante eu já tenho e isso eu já agarrei e já deixei que se instalasse. 
As segundas-feiras nem sempre começam bem e hoje de certeza não é um dia em que me sinto poderosa. Mas estou grata por elas e quero muitas, ainda que sejam arrastadas e difíceis. São  sempre recomeços e novas oportunidades e enquanto as houver, está tudo bem.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A casa do Oscar



Ando a ver este documentário e lembrei-me disto. É do Chico [Buarque].

"A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar.
Mais tarde, em um aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.
Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar!
Pois bem, internaram-me em um ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.
Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.
Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar".

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

"Pessoas sem filhos vs Pessoas com filhos"

Encontrei este link no facebook e partilhei com a seguinte frase: "Detesto admitir, mas é quase tudo verdade. Não tudo, mas quase tudo". Passado algum tempo, havia nos comentários algumas vozes discordantes. Hoje em dia abundam este tipo de artigos, e às vezes até dá que pensar. 
Antes de mais, com a minha frase eu queria dizer que algumas daquelas coisas já nos aconteceram numa dada altura. Não em simultâneo, não sempre. 
Este texto em forma de lista quase sugere que não ter filhos é que é, é ter liberdade para escolher, para fazer, para ir. E depois as pessoas com filhos, coitadas, com vidas patéticas, sujinhas e limitadas. A vida com filhos não é assim, é uma visão redutora. Mas os aspectos referidos no texto acontecem, ah sim. 

Eu por exemplo, temo a sexta-feira. A semana de trabalho do Daniel tem seis dias, ao sábado ele sai para trabalhar, eu fico sozinha com as duas pequenas, com o almoço para tratar e sestas para gerir. E é quando me defronto com a desarrumação que vai pela minha casa, pelo monte de roupa até ao tecto, pelas tarefas que se acumulam. Para não falar de que não damos um jantar para amigos há meses. 
No outro dia estava tão exausta que só queria cinco minutos de silêncio. E juro que pensei ir um bocadinho para o escritório, para o conseguir. Entre outros.
Às vezes é mesmo muito duro, caótico e desesperante. Mas os adultos somos nós e cabe-nos gerir a dinâmica familiar, criá-la de forma saudável. Nenhuma criança se vai sentir segura com pais que não têm amor próprio. E pais com amor próprio investem nas rotinas, na estabilidade, na coerência. E com isso ganham tempo, ganham espaço e ganham respeito. E nas rotinas familiares tem que haver espaço para, por vezes, as coisas descambarem.

Eu gosto muito de ser mãe, fui mãe quando me senti preparada. Não preparada para as noites interrompidas, para as refeições atribuladas, para as birras, para as fases, ninguém está verdadeiramente preparado para isso. Digo preparada para a entrega, para uma mudança de vida. 
Perdem-se umas coisas, ganham-se outras, ajustam-se outras. O que interessa isso? Nenhum pai ou mãe saudável vai olhar para os filhos e pensar "foste a pior coisa que me aconteceu". Ter um filho é maravilhoso, e este adjectivo já inclui tudo o que tem de terrível e assustador. E o terrível não é ter uma nódoa de vomitado na roupa, nem poder ir ao cinema ou ao restaurante sempre que apetece. Terrível é querer ser um bom pai e sentirmo-nos a falhar, sentirmo-nos a sucumbir ao cansaço, sentir que não temos o tempo todo que queremos. Assustadora é a preocupação que nos acompanha sempre, pelo bem estar dos nossos filhos. São os nossos filhos. A dar os primeiros passos, a dizer “bola” pela primeira vez. Cada dia vão dependendo menos de nós e tudo isso é simplesmente maravilhoso, mas logo a seguir, um bocadinho amargo. 

Depois cada família tem as suas peripécias, e os pais adoram trocar cromos. Às vezes acho que a nossa vida dava um filme de terror, ou então uma comédia e isso não faz mal. Pegar nesta lista e dizer “isto é a minha vida” é simplesmente errado. Redutor para nós e injusto para elas. Não posso dizer que a minha vida era melhor antes da Bárbara e da Teresa. Era diferente, era boa. Mas agora também é. A um outro nível é até incomparavelmente melhor. Mas é preciso querer ver isso. Mesmo que tenha que voltar ao supermercado duas vezes no mesmo dia, às vezes até mais do que uma vez por semana.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

[o melhor do meu dia]

Às 7 acordou a Teresinha. Palrou, palrou e fui buscá-la, mudei-lhe a fralda e preparei o leite. O pai deu-lhe o biberão e eu deitei-me mais 5 minutos. Às 7.15 acordou a Bárbara. Ouvi-lhe os passitos rápidos e parou, encostou-se à ombreira da porta a olhar, só com um olho aberto, o cabelo desgrenhado, o livro da Carochinha debaixo do braço. Chamei-a, deitou-se ao meu lado e assim ficamos os 4 na minha cama, nós nas pontas e elas no meio, num namoro pegado até serem mesmo horas de levantar. 
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